As lesões por pressão (LPP) são um problema de saúde pública significativo que estão entre as complicações mais prevalentes e evitáveis no cuidado em saúde, sendo que aproximadamente 1 em cada 10 pacientes hospitalizados podem desenvolvê-las ao longo da internação. Por trás desse número estão dores intensas, risco de infecção, piora clínica e aumento do tempo de internação. Como profissional da terapia intensiva, vejo diariamente algo que ainda pouco se reconhece: a LPP não é consequência natural do adoecimento, ela é, na maior parte das vezes, um indicador da qualidade do cuidado prestado. 1
Apesar de muitas vezes associadas apenas ao tempo em que o paciente permanece na mesma posição, as LPPs são o resultado de um conjunto de fatores que envolvem desde o estado clínico do indivíduo até a organização dos processos assistenciais. Idosos, pacientes acamados, indivíduos com mobilidade reduzida, pessoas com comorbidades ou sob uso de medicamentos específicos têm a pele mais suscetível a danos. Fragilidade da pele, doenças pré-existentes, nutrição inadequada, uso de determinados medicamentos, pouca mobilidade e até o microclima do leito influenciam diretamente o risco de desenvolvimento das lesões; o que torna a prevenção um esforço conjunto entre diferentes profissionais e áreas.2
A avaliação de risco não pode ser pontual ou burocrática. Escalas preditivas devem ser usadas diariamente e associadas à observação clínica individual: sedação, nutrição, estabilidade hemodinâmica, edema, exposição à umidade, histórico de lesões prévias. A pele precisa ser vista como um órgão em risco, assim como coração e pulmões, e monitorada com o mesmo rigor.
O risco é ainda maior em pacientes críticos, que muitas vezes dependem de sedação, têm mobilidade reduzida ou passam por instabilidade hemodinâmica. Nesses casos, práticas como a mobilização precoce, o ajuste correto do leito, o posicionamento do paciente e a revisão frequente da pele são estratégias essenciais para proteger áreas mais afetadas como as proeminências ósseas, incluindo região sacral, calcanhares, tornozelos, cotovelos, ombros e região trocantérica.
A tecnologia é uma aliada essencial. Camas com redistribuição de pressão, sensores e sistemas de monitoramento permitem que protocolos de prevenção sejam aplicados com consistência. Não substituem a prática clínica, mas ampliam a capacidade da equipe hospitalar: distribuem melhor a pressão, controlam o microclima, favorecem a mobilização e o reposicionamento e oferecem dados objetivos que ajudam equipes a agir antes que a lesão se instale.
A prevenção, no entanto, não se limita aos hospitais. Com o aumento do cuidado domiciliar, cresce também o número de pacientes expostos ao risco. Idosos, pessoas acamadas e indivíduos com dependência funcional precisam de atenção especial. Orientações simples sobre reposicionamento, hidratação, higiene, nutrição e uso de superfícies adequadas podem evitar complicações e garantir mais conforto e segurança para o paciente e seus cuidadores.
Programas bem-sucedidos de prevenção passam pela avaliação precoce do risco, adoção de rotinas estruturadas e educação contínua das equipes e cuidadores. Recursos modernos também complementam esse cuidado, facilitando a execução dos protocolos e contribuindo para melhores resultados clínicos.
No mês em que se chama a atenção para a prevenção da lesão por pressão, a mensagem central é clara: a maior parte das lesões pode ser evitada quando o cuidado é organizado, atento e baseado em boas práticas, tanto no hospital quanto no ambiente domiciliar.
¹ Tervo-Heikkinen T, Heikkilä A, Koivunen M, Kortteisto T-R, Peltokoski J, Salmela S, Sankelo M, Ylitörmänen T-S, Junttila K. Pressure injury prevalence and incidence in acute inpatient care and related risk factors: A cross-sectional national study. Int Wound J. 2021 Oct;19(4):919–931. doi: 10.1111/iwj.13692.
2 Trebbi A, Mukhina E, Rohan P-Y, Connesson N, Bailet M, Perrier A, Payan Y. MR-based quantitative measurement of human soft tissue internal strains for pressure ulcer prevention. Medical Engineering & Physics. 2022; 108:103888. doi: 10.1016/j.medengphy.2022.103888.
Fonte: Burson Global
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