As recentes declarações do Presidente estadunidense Donald Trump, que sem qualquer evidência científica associam o uso de paracetamol ao autismo e reforçam uma perigosa agenda antivacinal, desencadeiam uma cascata de consequências devastadoras.

Esse discurso irresponsável corrói a confiança pública na ciência, aprofunda a alienação social e a polarização ao validar notícias falsas, e arrisca retardar avanços científicos cruciais. 

De forma ainda mais grave, essa desinformação alimenta o capacitismo, estereotipando o autismo como uma "doença" a ser evitada, em vez de reconhecê-lo como uma expressão valiosa da neurodiversidade humana. Ao atacar a pluralidade, tais palavras minam o solo fértil da criatividade e da inovação, essenciais para uma sociedade verdadeiramente Justa, Sustentável e Desenvolvida.

O primeiro e mais imediato impacto é a corrosão da confiança pública na ciência. Quando uma figura de proeminência global sugere, sem qualquer base factual, uma ligação entre o paracetamol e o autismo, ele não ataca apenas um medicamento, mas todo o edifício do método científico. 

A comunidade médica e científica internacional é uníssona em afirmar que não há evidências que sustentem essa relação. Pelo contrário, estudos robustos continuam a indicar que o paracetamol, quando usado conforme a orientação médica, é seguro durante a gestação e amplamente recomendado para aliviar dores e febres, condições que, se não tratadas, podem elas mesmas trazer riscos.

Essa desconfiança semeada é a mesma que alimenta o movimento antivacinas, que ignora décadas de evidências esmagadoras sobre a segurança e a eficácia das vacinas na erradicação de doenças devastadoras. O resultado é um perigoso retrocesso, onde opiniões infundadas ganham o mesmo peso de pesquisas rigorosamente revisadas por pares.

Em um vácuo de confiança nas instituições, os indivíduos se sentem perdidos e alienados. Essa insegurança os torna presas fáceis para as "fake News" e teorias conspiratórias, que oferecem respostas simples e sedutoras para questões complexas. Grupos antivacina e propagadores de desinformação rapidamente se apropriam dessas falas para validar suas crenças, aprofundando a polarização social.

Cria-se um ciclo vicioso: a desconfiança na ciência leva à busca por "verdades alternativas", que por sua vez reforçam a rejeição às fontes de informação credíveis. O diálogo construtivo se torna impossível, e a sociedade se fragmenta em bolhas ideológicas hostis, incapazes de colaborar para resolver problemas reais.

O dano vai além do campo das ideias. A desconfiança generalizada pode levar a consequências trágicas:

Recusa de Tratamentos: Pessoas podem deixar de usar medicamentos eficazes e seguros por medo, arriscando a própria saúde e a de seus filhos.

Cortes de Financiamento: Um clima político hostil à ciência pode resultar em cortes de verbas para pesquisas essenciais, retardando o desenvolvimento de novas terapias e aprofundando nosso desconhecimento sobre inúmeras condições, incluindo o próprio Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Estamos, essencialmente, abrindo mão de ferramentas valiosas que a humanidade desenvolveu para aliviar o sofrimento e promover o bem-estar, trocando-as por uma ignorância deliberada e perigosa.

Talvez a consequência mais dolorosa desse tipo de discurso seja o reforço do capacitismo. Ao tratar o autismo como uma "doença" a ser evitada ou "curada", insinuando que sua origem estaria em um ato simples como tomar um analgésico, Trump perpetua uma visão estigmatizante e profundamente equivocada.

Essa narrativa fere a dignidade de milhões de pessoas autistas e suas famílias. Ela ignora o que a ciência já nos diz: o autismo é uma condição neurodiversa, com fortes componentes genéticos e multifatoriais, que representa uma das muitas e belas expressões da diversidade humana. 

Não é uma falha, um defeito ou uma doença a ser erradicada. É uma forma diferente de perceber o mundo, de sentir e de existir. Entidades que defendem os direitos das pessoas autistas, inclusive, têm repudiado veementemente essa declaração por seu caráter excludente e desumanizador.

Uma sociedade que teme a diferença é uma sociedade que se condena à estagnação. A criatividade e a inovação – seja na ciência, na tecnologia, nas artes ou na economia – florescem em ambientes plurais, onde diferentes perspectivas, experiências e formas de pensar colidem e se combinam para criar algo novo.

Ao promover um entendimento que marginaliza a neurodiversidade, o discurso trumpista não apenas comete uma injustiça social, mas também sabota o potencial criativo da sociedade. As contribuições de pessoas no espectro autista são imensuráveis em todos os campos do saber. Negar sua legitimidade e valor é privar a todos nós de um futuro mais rico, mais inteligente e mais inovador.

Resumindo, a irresponsabilidade dessas declarações cria uma cascata de efeitos devastadores. É nosso dever, como cidadãos e Defensores da Dignidade Humana, iluminar as sombras da ignorância com a luz da ciência, da alteridade e do respeito. A Beleza, afinal, está em enxergar e celebrar o valor de cada ser humano em sua plenitude.

Mantenhamos a chama da esperança acesa, lutando por um mundo onde o conhecimento prevaleça sobre o preconceito!

*André Naves é Defensor Público Federal formado em Direito pela USP, especialista em Direitos Humanos e Inclusão Social; mestre em Economia Política pela PUC/SP; Cientista Político pela Hillsdale College e doutor em Economia pela Princeton University. Comendador Cultural, Escritor e Professor (Instagram: @andrenaves.def).

Fonte: Libris

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