"Minha vizinha falou que tenho pouco leite, por isso não consigo ordenhar. É verdade isso?". Esse tipo de pergunta é comum para quem atende lactantes e envolve mitos bastante difundidos na cultura popular sobre aleitamento materno. Neste Agosto Dourado, mês de incentivo à amamentação, o LeME - Leite Materno na Escola, organização da sociedade civil que apoia e protege a amamentação, promove mais uma edição do Curso Leite Materno em Casa e esclarece dez dúvidas recorrentes no workshop, realizado gratuitamente e online, a cada dois meses, para mães que amamentam e precisam passar um período longe do bebê.
"Há muita desinformação sobre amamentação em geral, e a indústria de leites e bicos artificiais faz questão de que difundir informações contraditórias, com o propósito de confundir as famílias e atingir mais consumidores.", diz Glaucia Exposito, associada do LeME, uma das voluntárias do curso e coordenadora do LeME Comunica. "Nosso objetivo com esse curso é ser rede de apoio para essas mães e demonstrar que é possível seguir amamentando, mesmo que seja preciso se separar do bebê por algumas horas", complementa. Veja abaixo dez questões comuns no Curso do LeME e as respostas dadas pela equipe multidisciplinar responsável pelas aulas:
1. Depois de um tempo bebê faz o peito de chupeta.
Mito.
Quando o bebê está no peito e não há barulho de deglutição, é porque ele está realizando a chamada sucção não-nutritiva. Isso não significa que não haja fluxo de leite nesse momento, mas sim que há uma diminuição nesse fluxo. Essa sucção é importante para as necessidades fisiológicas do bebê, e também para regulação emocional. Para quem amamenta, a vantagem é a estimulação do seio, o que ajuda a manter uma boa produção de leite.
2. Chupetas e mamadeiras causam confusão de bicos e podem levar ao desmame.
Verdade.
Bebês que utilizam chupetas e mamadeiras vão, aos poucos, desaprendendo a mamar no peito. Isso acontece porque a sucção que o bebê precisa fazer na mamadeira ou na chupeta é muito diferente daquela que ele faz no seio materno. No peito da mãe o bebê precisa realizar movimentos com a língua e com os músculos da face para ordenhar o leite. Na mamadeira e na chupeta esses movimentos são totalmente opostos. O resultado? Quando o bebê vai mamar no seio materno ele se "confunde" e passa a extrair menos leite.
Além disso, a mamadeira tem um fluxo maior e constante, enquanto na mama o leite é liberado por pulsos, devido a ação da ocitocina. Com o passar do tempo, o bebê que mama na mamadeira ao tentar mamar no seio materno, não consegue extrair a quantidade de leite que queria e passa a rejeitar o peito da mãe.
A confusão de bicos pode acontecer desde a primeira mamadeira ou demorar meses para que o bebê demonstre os sinais de confusão. Não dá pra saber com antecedência como será, por isso não é recomendado o uso de mamadeira para oferta de leite ou de qualquer outro tipo de bico. Há opções seguras, como o copo aberto ou a colher dosadora.
3. É possível reverter uma confusão de bicos.
Verdade.
Na maioria dos casos, com a retirada imediata do bico artificial (mamadeira, bico intermediário de silicone ou chupeta), contato pele a pele com o bebê e livre demanda já ajudam nessa reversão. Em outros casos, pode ser necessário o acompanhamento da hidratação do bebê pelo pediatra ou consultora em amamentação. Dos dois jeitos, não é um processo simples e é importante que os cuidadores estejam disponíveis física e emocionalmente para suprir a necessidade emocional que o bebê tem do bico artificial sem ele e ajudá-lo a se acostumar a não ter o bico.
4. Quando nasce outro bebê é preciso desmamar o primeiro pra ele não "secar" o leite do recém-nascido.
Mito.
Não é necessário desmamar o mais velho, nem durante a gestação e nem depois do nascimento do caçula, mas é importante dar preferência para a livre demanda do recém-nascido. A amamentação durante a gestação é chamada de lactogestação e a amamentação de bebês/crianças com idades diferentes recebe o nome de amamentação em tandem.
5. Depois que tiro o leite materno do congelador não posso voltar a congelá-lo.
Verdade.
Como todo alimento, o leite materno não deve voltar para o freezer depois de retirado. Mas pode ficar na geladeira por até 12 horas após o descongelamento e até 30 minutos em temperatura ambiente, conforme orientação da Anvisa. Lembrando que o leite que teve contato com a boca do bebê deve ser descartado.
6. Se consigo ordenhar pouco leite na bomba extratora é sinal de que tenho pouco leite.
Mito.
O volume extraído não mede produção, porque a bomba extrai de um jeito diferente da boquinha do bebê e há uma série de fatores a serem analisados com a bomba (especialmente se o tamanho do bocal é adequado ao seio). Além disso, é preciso dar um tempo ao corpo para que se ajuste a essa produção com uma sucção diferente. Pode ser também que você tenha mais facilidade com a ordenha manual, pois são pressionados pontos específicos no seio para a ejeção do leite.
7. Depois de um ano o leite materno perde suas propriedades.
Mito.
O leite materno nunca perde suas propriedades. Depois de um ano o leite deixa de ser o principal alimento do bebê, mas segue sendo fundamental pelas taxas de hormônios, probióticos, vitaminas, anticorpos e lactoferrina, entre outros, que ajudam no controle do sono e sinais de alerta, formação da microbiota intestinal, resistência a infecções e homeostase, defesa do organismo e absorção de ferro, por exemplo. Inclusive, a recomendação da Organização Mundial da Saúde e da Sociedade Brasileira de Pediatria é que a amamentação seja estendida até, no mínimo, os dois anos do bebê justamente para que ele possa se beneficiar desses componentes.
8. O armazenamento do leite materno deve ser sempre em potes de vidro ou recipientes específicos para isso.
Verdade.
Por ser um alimento, o leite materno deve ser armazenado de modo a não sofrer contaminação e conservar o máximo das propriedades de quando é servido "direto da fonte". Os potes de vidro (sempre com tampa plástica, pois a de ferro pode enferrujar e contaminar o leite) ou de plástico, livres de BPA, devem ser esterilizados em água fervente por 15 minutos e depois postos para secar, com a boca para baixo, sobre um pano limpo. Depois de secos, podem ser fechados e guardados em um recipiente com tampa para a próxima utilização.
Um lembrete: também é possível armazenar o leite materno naqueles saquinhos específicos para isto, mas eles são de uso único.
9. Existem sinais que indicam que o bebê está em confusão de bicos.
Verdade.
Quando o bebê fica impaciente para mamar, chora, parece rejeitar o peito, começa a morder o seio, a probabilidade de que esteja rolando uma confusão de bicos é grande. Se houve introdução de chupeta, mamadeira ou bicos de silicone, o padrão de sucção do bebê muda, pois no seio ele faz um movimento com a língua e com grupos musculares faciais e com os bicos ele faz movimentos opostos.
A confusão de bicos vem acompanhada da confusão de fluxo, que é contínuo na mamadeira, então exige menos esforço do bebê. Quando ele suga e a quantidade de leite não é constante, ele começa a rejeitar o seio.
10. Apenas bebês maiores aceitam receber leite materno fora da mamadeira.
Mito.
Desde o nascimento do bebê, se não for possível deixá-lo mamando ao seio, é possível ofertar o leite materno em copo aberto (como os copinhos de pinga). Alguns aceitam a colher dosadora desde cedo também, outros podem ter alguma dificuldade e se adaptarem melhor a ela por volta dos três meses. O mais importante é lembrar que o bebê se adapta a receber o leite dessas formas (que não prejudicam o aleitamento materno) e que só precisam da disponibilidade e da paciência do cuidador para isso.
Curso Leite Materno em Casa
O Curso Leite Materno em Casa comemora um ano em agosto. A próxima edição ocorre nos dias 7 e 14 de agosto, a partir das 10h, de forma gratuita e online. Dividido em dois dias, o curso traz na primeira aula orientações sobre como ordenhar e armazenar o leite materno. No segundo dia, o foco é na oferta do leite ordenhado de forma segura sem o uso de bicos artificiais que podem levar ao desmame. Nessa aula todos os cuidadores do bebê são encorajados a participar do curso, já que a organização propõe que a responsabilidade pela manutenção da amamentação não é só da mãe.
Essa é a sétima edição do Curso que já beneficiou cerca de 160 famílias. As inscrições podem ser feitas pelo link: https://leitematernonaescola.com.br/minicurso-leite-materno-em-casa.
Sobre o LeME:
Criado em 2018, a partir do trabalho voluntário de ativistas da amamentação dentro de escolas da rede municipal de São Paulo, o LeME é uma organização da sociedade civil criada por mães, com o objetivo de promover, proteger e apoiar a amamentação. O LeME acredita que o fortalecimento da cultura da amamentação no país passa pelo debate sobre o trabalho reprodutivo e pelo enfrentamento à cultura do desmame. Para isso, constrói redes de apoio à amamentação em diferentes contextos sociais e através de diversas parcerias; cria estratégias de acolhimento da mãe lactante que se separa do bebê por algumas horas por dia e tem o desejo de continuar a amamentação; e distribui informação sobre a amamentação baseada em evidências, reconhecendo a importância da divulgação de conteúdos sobre aleitamento materno de forma massiva, arrojada e consistente, para fortalecer a cultura da amamentação no país.
Fonte: LEME

